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sábado, 29 de agosto de 2015

Trecho de Felicidade Clandestina

Repassando da web por Ivan Evaldo Kussler Ivam Evaldo Kussler e Marco, citando fontes.
O PRIMEIRO BEIJO


Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.

Clarice Lispector - A felicidade clandestina

fonte: http://newspaperbook.blogspot.com.br/2013/05/cronicas-2-clarice-lispector-o-primeiro.html

domingo, 16 de agosto de 2015

OS 10 ANIMAIS MAIS RAROS DO MUNDO REPASSADO POR MARCO E IVAN EVALDO KUSSLER

OS 10 ANIMAIS MAIS RAROS DO MUNDO REPASSADO POR MARCO E IVAN EVALDO KUSSLER IVAM, SEM FINS AUTO PROMOCIONAIS, CITANDO FONTES
10 ANIMAIS MAIS RAROS DO MUNDO


Atualmente, existe uma variedade de animais que estão ameaçados de extinção, e poderemos perder a oportunidade de apreciar as suas peculiaridades e belezas raras. Algumas dessas espécies foram registradas pelo fotógrafo da vida selvagem Joel Sartore da National Geographic.
Com 20 anos de experiência, o trabalho de Joel já o levou a registros incríveis da natureza em centenas de partes do mundo, desde o Ártico até a Antártida, documentando espécies e paisagens ameaçadas de extinção a fim de mostrar o quanto vale a pena tentar salvar o nosso mundo.
E, na galeria abaixo você vai poder conferir 10 dos animais mais raros do mundo e que estão prestes a desaparecer da face da Terra. Segundo o site da National Geographic, Sartore escolheu um formato de registro fotográfico em que todas as criaturas parecessem do mesmo tamanho a fim de retratar a igualdade na importância de cada espécie. Confira abaixo:

1 – Leopardo-de-amur


O leopardo-de-amur, também conhecido como leopardo-siberiano, é uma das mais raras subespécies de leopardo, tendo apenas atualmente cerca de 50 exemplares no mundo. Ele é encontrado na região de Primorye, da Rússia, e em algumas regiões da China que fazem fronteira com o território russo.
A sua ameaça de extinção é considerada crítica pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). O exemplar que você vê na foto acima é o leopardo-de-amur chamado Usi, que está no Zoológico de Omaha, no Nebraska (EUA).

2 – Rinoceronte-de-sumatra


Conhecido por ser a menor das espécies de rinocerontes e o que tem mais características primitivas, o rinoceronte-de-sumatra tem sido alvo de caçadores há muito tempo devido ao valor de seus chifres. Atualmente, a ameaça à espécie também é considerada crítica, sendo que o número de indivíduos atualmente está estimado em menos de 275 exemplares.
O rinoceronte-de-sumatra que você vê na imagem acima (e parece emergir das sombras) é o Harapan, que tem apenas quatro anos de idade e vive no Centro de Conservação de White Oak, na Flórida.

3 – Gorila da planície ocidental


Este animal (nome científico: Gorilla gorilla gorilla) é uma das duas subespécies do gorila ocidental que vive em florestas primárias e secundárias, além de pântanos da planície, na África Central, em Angola, Camarões, República do Congo, Guiné Equatorial e Gabão.
Pesquisas realizadas desde a década de 1980 sugerem que a caça comercial e os surtos do vírus Ebola estão por trás da queda do número das espécies de gorila na África. Com as últimas epidemias, o número pode ter caído ainda mais.
Atualmente, o Zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos, abriga cerca de 550 indivíduos da espécie na sua unidade de conservação, liderando os nascimentos em cativeiro. O pequeno gorila de apenas seis semanas de idade — sexo feminino — da imagem acima clicada por Joel Sartore é um dos nascidos nesse zoológico.

4 – Rato-pigmeu de montanha


O rato-pigmeu (ou gambá-pigmeu) faz parte da família Burramyidae de marsupiais que vivem em ambientes frios e montanhosos do sul da Austrália. Eles são pequenos, pesando cerca de 45 gramas. São animais noturnos e onívoros, vivendo de uma dieta de invertebrados, frutos, sementes, néctar e pólen.
A partir de 2008, o animal foi incluído na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como criticamente em perigo. As estimativas populacionais totalizaram menos de 2 mil indivíduos de três populações isoladas, estando em sério declínio.
As maiores ameaças para as populações dessa espécie incluem destruição e fragmentação do habitat e alterações climáticas, além de predação por gatos selvagens e raposas vermelhas. A construção de resorts de esqui nas regiões alpinas da Austrália tem sido também um dos maiores fatores atribuídos ao declínio da população.

5 – Crocodilo-filipino


O crocodilo-filipino (Crocodylus mindorensis), também conhecido como o crocodilo Mindoro ou o crocodilo de água doce filipino, é uma das duas espécies de crocodilo que são encontradas nas Filipinas.
Ele é um animal relativamente médio de tamanho: os machos geralmente não crescem mais do que cerca de 3 metros de comprimento, enquanto as fêmeas são ainda menores. Esta espécie é uma das de crocodilianos mais severamente ameaçadas.
Existem apenas cerca de 250 no seu habitat selvagem em um registro feito em setembro de 2011, de acordo com um artigo do National Geographic. Além de seus locais, como lagos, lagoas e pântanos, terem sido amplamente convertidos em plantações de arroz nas Filipinas, o animal também sofre com caça e métodos de pesca destrutivos.

6 – Orangotango-de-sumatra


Esse orangotango é encontrado apenas na ilha de Sumatra, na Indonésia. O declínio no número de indivíduos dessa espécie tem acontecido devido à exploração madeireira em seu habitat.
Nos últimos 75 anos, o número total da população de orangotangos-de-sumatra caiu em cerca de 80% e os cientistas estimam que existam apenas cerca de 7,3 mil em estado selvagem. O bonitão que posou para a foto acima é o orangotango-de-sumatra que está no Gladys Porter Zoo, em Brownsville, no Texas (EUA).

7 – Íbis-eremita


O íbis-eremita é uma ave migratória encontrada em habitats semidesérticos ou rochosos, geralmente perto de rios. Esses animais já habitaram todo o Oriente Médio, norte da África, sul e centro da Europa, tendo um registro fóssil que remonta pelo menos 1,8 milhão de anos.
Ele desapareceu da Europa há mais de 300 anos e foi considerado extinto, até que foi redescoberto no deserto sírio perto de Palmyra em 2002. Os cientistas estimam que existam cerca de 500 aves selvagens restantes no sul de Marrocos e menos de 10 na Síria.
Para combater esse declínio, programas de reintrodução recentes foram instituídos internacionalmente, com uma colônia de reprodução na Turquia, bem como locais na Áustria, Espanha e norte de Marrocos.
As razões para a queda no número de indivíduos não são totalmente claras, mas a caça e perda do habitat, além de intoxicação por agrotóxicos, têm sido considerados. De acordo com uma lenda turca, o íbis-eremita foi uma das primeiras aves que Noé soltou da arca, como um símbolo de fertilidade. A ave da foto acima vive no Zoológico de Houston, no Texas (EUA).

8 – Rã de Morelet


Fotografada no Aquário Nacional, em Baltimore, esta rã de Morelet pertence a uma espécie que os cientistas preveem que vá diminuir em mais de 80% nos próximos dez anos. Nativa do México e partes da América do Sul, ela está ameaçada de extinção devido à destruição do seu habitat e por ser afetada pelo fungo chytrid, que causa uma doença infecciosa que está dizimando anfíbios em todo o mundo.

9 – Bicho-pau da ilha de Lord Howe


Esse inseto que você vê na imagem é um bicho-pau da ilha de Lord Howe fotografado no jardim zoológico de Melbourne, na Austrália. Antes, os cientistas acreditavam que ele havia sido extinto por volta de 1920, após a introdução de ratos na ilha de Lord Howe, que está localizada entre a Austrália e a Nova Zelândia.
No entanto, em 2001, a espécie foi redescoberta na Pirâmide de Ball, um afloramento rochoso localizado a cerca de 22 quilômetros da ilha.

10 – Antílope branco


O Antílope Branco, também conhecido como Addax (nasomaculatus), é um animal que vive atualmente apenas na parte nigeriana do deserto do Saara, mas já foi encontrado por toda a África antigamente. Ele come principalmente vegetação rasteira e folhas de quaisquer arbustos, além de ervas e leguminosas.
Estes animais são bem adaptados no seu habitat desértico, podendo viver sem água durante longos períodos de tempo. Apesar disso, os cientistas estimam que apenas 300 indivíduos selvagens desta espécie criticamente ameaçada ainda existam. Sua população caiu devido à caça, secas e até ao turismo. Esse Addax da foto fica no Gladys Porter Zoo, em Brownsville, no Texas (EUA).  

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

i juca pirama - repassado por ivan evaldo kussler e marco pena


Ivam evaldo kussler e Marco postam sobre Gonçalves Dias - fontes citadas

I JUCA PIRAMA


nGonçalves Dias
Gonçalves Dias nasceu em Caxias - MA em 1823 foi estudante de Direito em Coimbra, Portugal.
Em 1843, escreveria o famoso poema Canção do Exílio.
Foi professor, pesquisador realizando várias viagens pelo interior do Brasil e para a Europa.
Em 1846, a publicação de Primeiros Cantos o consagraria como poeta; pouco depois publicaria Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848) e Últimos Cantos (1851). Neste último livro consta o poema I-Juca Pirama.
Considerado o principal poeta da primeira geração do Romantismo brasileiro, Gonçalves Dias ajudou a formar, com José de Alencar, uma literatura de feição nacional, principalmente com seus poemas de temática indigenista e patriótica.
Morreu em Baixo dos Atins - MA 1864.
nI-Juca Pirama
O título significa (tradução do tupi) , “o que há de ser morto, e que é digno de ser morto.” Ou simplismente, “aquele que é digno de ser morto”.
Mesmo sendo um poema épico, encontramos todo o tempo, o lirismo espontâneo, cheio de emoções, subjetividade e musicalidade típicas do Romantismo.
Um indianismo idealizado, no qual o índio é ligado aos seus costumes, integrado à natureza, honrado (quase um cavaleiro medieval) e exemplo do “bom selvagem”.
Ao fim e ao cabo, esse índio de Gonçalves Dias é um símbolo, uma figura poética... Expressão do desejo dos românticos em relação ao passado brasileiro.
Estrutura do poema:
Foco narrativo:
Narrado na 3ª pessoa (um índio timbira) que relata para a “geração atual” as proezas de um guerreiro tupi que esteve tempos atrás na aldeia. O narrado é onisciente e onipresente.
É a história de um guerreiro tupi que deveria servi de comida num ritual antropofágico entre os Timbiras.
Tempo e espaço:
Uma tribo timbira, provavelmente, no interior do Brasil (Maranhão) no tempo da colonização portuguesa
Personagens:
I – Juca Pirama – índio, herói idealizado, perfeito
O velho tupi – pai de I-Juca Pirama. Símbolo da tradição (tupi)
O velho timbira – narrador e “personagem” ocular da história
Os Timbiras – tribo conhecida pela sua ferocidade e pelo canibalismo (antropofagia)
.
Forma e divisão do poema:
-Gonçalves Dias busca na sua poesia adequar forma e conteúdo, nesse sentido, alterna verso longo e curso, versos lentos (descrição) e versos rápidos (ação).
-O poema é dividido em 10 cantos como uma composição épico-dramática. Tudo isso em função de definir um índio que simbolize os ideais de honra, heroísmo... Desejados pelo poeta que sejam... que se tornem, enfim, o caráter do próprio povo brasileiro.
História:
O poema narra o drama de I-Juca Pirama (aquele que vai morrer), último descendente da tribo tupi, que é feito prisioneiro de uma tribo inimiga.
Movido pela amor filial, pois o índio tupi era arrimo de seu pai, velho e cego, I-Juca Pirama, contrariando a ética do índio, implora ao chefe dos timbiras pela sua libertação. O chefe timbira a concede, não sem antes humilhar o prisioneiro.
Solto, o prisioneiro reencontra-se com seu pai, que percebe que o filho havia sido aprisionado e libertado. Indignado, o velho exige que ambos se dirijam à tribo timbira, onde o pai amaldiçoa violentamente o jovem guerreiro que ferido em seus brios, põe-se sozinho a lutar com os timbiras.
Convencido da coragem do tupi, o chefe inimigo pedi-lhe que pare a luta, reconhecendo sua bravura. Pai e filho se abraçam - estava preservada a dignidade dos tupis.
nCanto a Canto
Canto 1 - Apresentação e descrição da tribo dos Timbiras. Como está descrevendo o ambiente, o autor usa um verso mais lento e caudaloso, que é hendecassílabo (onze sílabas).
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.
(...)
Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,
Canto 2 - Narra a festa canibalística dos timbiras e a aflição do guerreiro tupi que será sacrificado. O poeta alterna o decassílabo (dez sílabas) com o tetrassílabo (quatro sílabas), o que sugere o início do ritual com o rufar dos tambores.
Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
       No passo horrendo?
Honra das tabas que nascer te viram,
       Folga morrendo.
Folga morrendo; porque além dos Andes
       Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
       Da fria morte.
Canto 3 - Apresentação do guerreiro tupi – I – Juca Pirama. Sem se preocupar com rimas e estrofação, novamente num ritmo mais lento, que se casa bem com a apresentação feita do chefe Timbira.
"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro;
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
"As nossas matas devassaste ousado,
"Morrerás morte vil da mão de um forte."
Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
"Dize-nos quem és, teus feitos canta,
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa
O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.
nCanto 4 - I - Juca Pirama aprisionado pelos Timbiras declama o seu canto de morte e pede aos Timbiras que deixem-no ir para cuidar do pai alquebrado e cego. Num ritmo ligeiro, dá a impressão do rufar dos tambores.
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi. Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
  Guerreiros, ouvi.
Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes — escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.
E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.
Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.
Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!
O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.
Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, — dizei!
Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.
Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? — Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.
Canto 5 - Ao escutarem o canto de morte do guerreiro tupi, o chefe dos timbiras entende ser aquilo um ato de covardia e desse modo desqualifica o índio tupi para o sacrifício. Dando a impressão do conflito que se estabelece e refletindo o diálogo nervoso, entre o chefe Timbira e o índio Tupi, o poeta altera o decassílabo com versos mais ou menos livres. Não há preocupação nem com estrofes nem com rimas.
Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
- És livre; parte.
- E voltarei.
- Debalde.
- Sim, voltarei, morto meu pai.
- Não voltes!
Canto 6 - O filho volta ao pai que não entende a demora do filho e ao pressentir o cheiro de tinta dos timbiras que é específica para o sacrifício desconfia do filho e obriga o filho a voltar novamente para a tribo dos timbiras, lá descobre que o filho chorou e foi desqualificado para o sacrifício, assim, o velho pai, não sabendo (ou entendendo) o gesto do filho, fica chocado com ato tão vergonhoso para o povo tupi.
Reproduzindo o diálogo entre pai e filho e também a decepção daquele, o poeta usa decassílabo juntamente com passagens mais ou menos livres. Não há preocupação com rimas ou estrofes.
- Tu prisioneiro, tu?
- Vós o dissestes.
- Dos índios?
- Sim.
- De que nação?
- Timbiras.
- E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebraste a maça...
- Nada fiz... aqui estou.
- Nada! -
Emudecem;
Curto instante depois prossegue o velho:
- Tu és valente, bem o sei; confessa,
Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo!
- Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia....
- E depois?...
- Eis-me aqui.
Canto 7 - Sob alegação de que os tupis são fracos, o chefe dos timbiras não permite a consumação do ritual. Num ritmo constante, marcado pelo heptassílabo (sete sílabas), o poeta reproduz a fala segura do pai humilhado e do chefe Timbira. A estrofação e as rimas são livres.
Pai:
  "Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedestes
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis, - e mas foram
Senhores em gentileza.
(...)
Chefe Timbira:
  “Responde com tôrvo acento:
- Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto.
Canto 8 - O pai envergonhado maldiz o suposto filho covarde. Para expressar a maldição proferida pelo velho pai, num ritmo bem marcado e seguro, o poeta usa o verso eneassílabo (nove sílabas), com rimas alternadas e paralelas.
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés”. (...)
Canto 9 - Enraivecido o guerreiro tupi lança o seu grito de guerra e derrota a todos valentemente em nome de sua honra. Casando-se com o tom narrativo e a reação altiva do índio Tupi, o poeta usa novamente o decassílabo com estrofação e rimas livres.
— Basta! Clama o chefe dos Timbiras,
— Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. —
O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
"Este, sim, que é meu filho muito amado!
"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
"Corram livres as lágrimas que choro,
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."
Canto 10 - O velho Timbira ( narrador ) rende-se frente ao poder do tupi e diz a célebre frase: "meninos, eu vi". O poeta fecha o poema, de forma harmoniosa e ordenada, o que reflete o fim do conflito e a serenidade dos espíritos.
Um velho Timbira, coberto de glória,
      Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
      Do que ele contava,
Dizia prudente: — "Meninos, eu vi!
"Eu vi o brioso no largo terreiro
      Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
      Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.
"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
      Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
      Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"
Assim o Timbira, coberto de glória,
      Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
      Do que ele contava,
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".